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Brecha na lei permite que bingos voltem a funcionar em São Paulo

 

 

Pelo menos 10 retomaram as atividades; legislação não deixa claro se sorteios com cartelas estão proibidos

Usando brechas na legislação, proprietários de bingos no Estado de São Paulo estão encontrando amparo para reabrirem totalmente suas casas. E os locais de jogos já voltam a chamar a atenção - e a atrair freqüentadores - até dentro de shoppings paulistanos.

Pelo menos dez bingos retomaram suas atividades desde janeiro. Isso ocorre por causa de uma lei, que não deixa suficientemente claro se os bingos de cartela estão proibidos - ao contrário do que ocorre no veto às máquinas caça-níqueis, às videoloterias e ao videopoker.

Os estabelecimentos paulistas que reabriram estão ligados a pequenas instituições desportivas, principalmente do interior do Estado. No passado, essas entidades obtiveram decisões judiciais para atuar com bingos e, como são de pouca visibilidade, acabaram não tendo de enfrentar recursos do Ministério Público.

Esse é o caso da Liga Regional Desportiva Paulista, com sede em Campinas. A entidade conseguiu em 2003 um acórdão na 15ª Câmara do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, que lhe concedia o direito de explorar o jogo de bingo. Como não houve recurso, o caso se tornou transitado em julgado, o que impede que a decisão seja revertida.

Os advogados da Liga ainda conseguiram em outubro do ano passado uma certidão atualizada da Justiça, reforçando que a decisão de setembro de 2003 continua valendo - de forma que as autoridades que não a reconhecerem estarão sujeitas a penalidades. Esse documento foi colado nas entradas de todos os estabelecimentos da organização que voltaram a funcionar.

Desde o fim do ano passado, a entidade fechou contrato com cinco casas da Grande São Paulo. Bingos de Santo André - Estação, Carlos Gomes e Barão (antigo General) - se filiaram em novembro de 2007 e logo em seguida retomaram as suas atividades. O mesmo aconteceu neste ano com o Interbingo - que funciona dentro do Shopping Interlar Interlagos, na zona sul de São Paulo - e o Teotônio Vilela, ambos na região de Interlagos, na zona sul da capital, que reabriram em abril e maio, respectivamente. Outros estabelecimentos negociam atualmente a sua entrada na Liga.

Advogados

“Essas casas só poderão ser fechadas se houver uma lei federal proibindo o jogo de bingo. Do contrário, eles continuarão abertos, porque a decisão da Justiça não pode ser revertida”, diz Patrick Luiz Ambrósio, sócio do escritório Advogados Associados, que representa a liga. Ambrósio argumenta que os jogos estão regulamentados pela Medida Provisória 2.216-37, o que é contestado pelo Ministério Público.

Segundo o presidente da Abrabin, Olavo Sales da Silveira, outras cinco casas voltaram a funcionar no interior do Estado desde janeiro. Todas adotaram o mesmo esquema de fechar parcerias com entidades que conseguiram decisões judiciais para atuar com os jogos. Silveira também diz que os bingos estão legais atualmente, mas que muitos permanecem fechados pois acham que o Judiciário é afetado pela opinião pública. “Depois da Operação Furacão (que deteve magistrados acusados de vender sentenças em favor da máfia do jogo), os juízes ficaram temerosos em ceder liminar para os bingos e serem alvos de investigações.”

Advogado da União diz que funcionamento é ilegal

A exploração de bingos no País é ilegal, conforme o entendimento da Advocacia-Geral da União (AGU), que representa os interesses do governo federal. Os argumentos sobre a ilegalidade são, basicamente, dois. Um deles é de que o Supremo Tribunal Federal (STF) tem uma súmula afirmando que diz que o jogo de bingo só pode ser autorizado por meio de uma lei federal. Portanto, todas as casas que funcionam com base em leis estaduais ou municipais têm de ser, indiscutivelmente, fechadas.

Textualmente, a Súmula Vinculante 2 (Bingos e Loterias) diz que "é inconstitucional a lei ou ato normativo estadual ou distrital que disponha sobre sistemas de consórcios e sorteios, inclusive bingos e loterias". A medida surgiu justamente para impedir esse jogo ou o avanço no número de loterias estaduais pelo País.

No segundo argumento é que surge a polêmica. Segundo a Advogacia-Geral da União, ainda não existe no País uma lei federal para regular o jogo de bingo. Os ativistas do setor, porém, argumentam que está vigente o artigo 59 da chamada Lei Pelé, uma norma federal de 1998, que autoriza a exploração do jogo. Para a AGU, esse dispositivo foi revogado pela Lei Maguito, outra norma federal, só que de 2000. Entretanto, a Lei Maguito também autoriza o funcionamento das casas em seu artigo 59, o que a AGU não explica. Como há dois entendimentos, cada juiz decide o que acha mais correto.

A regulamentação dos bingos é um tema controverso há anos. Em 2004, após o escândalo Waldomiro Diniz, sobre esquemas ilegais em loterias, o governo federal baixou uma Medida Provisória, proibindo a atividade, mas a ordem foi derrubada no Senado meses depois. Antes disso, várias leis já haviam disposto sobre o tema, mas nenhuma que acabasse com a confusão.

''Órfãos'' das apostas aos poucos retomam seus postos

Clientes e funcionários aprovam a abertura das casas; estudo diz que 1,5% do País é viciado em jogatina

Sentada em uma mesa com quatro amigas, Rosa Valente, de 62 anos, acompanha suas cartelas de olho no prêmio de R$ 6 mil. Desde que o Interbingo reabriu, a aposentada comparece várias vezes por semana ao local, mas diz que não costuma perder muito dinheiro. "Eu venho mais para me divertir com minhas amigas e não para ficar apostando feito uma louca", diz a aposentada, que gasta em média R$ 20 em cartelas e ainda não ganhou nenhum prêmio.

O salão de jogos da Interbingo, com capacidade para aproximadamente 480 pessoas, fica praticamente lotado durante as tardes. Há ainda pessoas que esperam vagar lugares nas mesas para iniciar as apostas.

O vigia João Paulo Fernandes, de 31 anos, costuma passar no local a caminho do edifício onde trabalha. Também diz jogar pouco, no máximo um conjunto de cartelas por dia, o que custa R$ 6.

O mesmo cenário de casa cheia é visto no Teotônio Vilela. O bingo abre no início da tarde, com prêmios de R$ 2 mil a cada duas horas. Com a chegada da noite, o número de freqüentadores aumenta e também os prêmios. Às 21 horas, a casa paga R$ 3 mil para os ganhadores.

Tratamento

O fechamento dos bingos contribuiu para o tratamento de muitas pessoas viciadas em jogos de azar. O coordenador do Ambulatório do Jogo Patológico (Amjo), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Hermano Tavares, diz que a maioria conseguiu superar o problema e foram poucos os que buscaram a jogatina ilegal.

Tavares, no entanto, afirma que alguns de seus pacientes sofreram fortes recaídas com a abertura de algumas casas. "Tivemos casos de pacientes que foram passear no shopping, viram os bingos em funcionamento e saíram de lá seis horas depois com dívidas de até R$ 10 mil", diz. Tavares está concluindo um estudo em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cujos dados preliminares apontam que 1,5% da população brasileira é viciada em jogos de azar.

Com a abertura e o grande movimento de algumas casas, muitas pessoas foram contratadas. Segundo a gerente do Interbingo, Morgana de Oliveira, 110 funcionários foram admitidos desde abril - 60% eram ex-empregados, que estavam sem ocupação desde que a casa fechou, em junho do ano passado.

De acordo com uma estimativa da Confederação dos Trabalhadores do Turismo e Hospitalidade (Contratuh), o setor de bingos respondia por 120 mil empregos, antes do fechamento dos estabelecimentos.

"Nem dá mais para saber quantos estão trabalhando no setor, porque é uma onda de abre e fecha", diz o presidente da Contratuh, Moacir Roberto Tesch Auersvald. (O Estado de São Paulo - Renato Machado e Laura Diniz)


 

 

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