NOTÍCIAS - GAMES NEWS INFORMA

 

Manchete do Jornal do Brasil de domingo

Governo prepara volta
dos bingos

O tema é tratado há algum tempo nos bastidores, mas agora as apostas já são feitas às claras: está no Congresso projeto do governo que libera os jogos de azar no Brasil. Levando em conta 70 proposições sobre o mesmo tema em tramitação no Legislativo, deixa de lado caça-níqueis, mas legaliza as casas de bingo ­ hoje em funcionamento só sob proteção de liminares. No que depender de parlamentares como o líder do PT na Câmara, Maurício Rands, a liberação do jogo do bicho também será incluída na proposta. Embora críticos alertem para as relações perigosas entre jogo e crime organizado, o governo prefere olhar para os cofres: projeta quase R$ 5 bilhões em arrecadação de impostos.

 

 


Há um grande apoio no Parlamento pela volta dos bingos: fiscalização preocupa

 

Reabertura do jogo em debate

Defensores da idéia no Congresso alegam uma nobre finalidade: injetar até R$ 9 bilhões na área da saúde, já que está difícil criar novo imposto

As articulações dos governistas na Câmara para tentar emplacar a Contribuição Social à Saúde (CSS), um novo tributo nos moldes da extinta CPMF, foi a saída encontrada por um grupo de parlamentares para reascender uma discussão polêmica: a legalização dos jogos de azar. O tema é tratado há algum tempo nos bastidores pela cúpula do governo, mas sempre ganha novos contornos. O principal motivo é a sede de arrecadação que pode render aos cofres públicos de R$ 2 bilhões a R$ 9 bilhões, a depender do otimismo das projeções.

Desta vez, o movimento para colocar as casas de bingos dentro da lei foi mascarado como uma alternativa para evitar o aumento da carga tributária e salvar o Sistema Único de Saúde (SUS). Parlamentares em defesa do projeto reconhecem, no entanto, que foi um recado de que não vão aceitar que o assunto seja engavetado.

Existe uma forte pressão de sindicalistas e dos empresários para que se tenha uma resposta para os mais de 80 projetos que abordam a regularização dos jogos no Congresso. O lobby tem efeito até no Planalto e, por lá, conta com o aval do ministro das Relações Institucionais, José Múcio. O argumento é de que a regularização foi uma antiga promessa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao setor, quando solicitou ajuda para ser fonte de desenvolvimento do esporte voltado para a área social. Outra justificativa para o interesse é o apelo eleitoreiro da medida, uma vez que pode promover entre 100 mil e 300 mil novos postos de trabalho.

"É o começo de um debate. Não podemos mais fingir que os bingos não funcionam, não estão espalhados pelo País"

Arnaldo Faria de Sá deputado (PTB-SP)


Sem caça-níqueis

O projeto mais recente é o 3489/08. Foi apresentado na semana passada e libera apenas os bingos. Nada de caça-níqueis – que Lula nem quer ouvir falar – ou jogo do bicho. Terão autorização para funcionar bingos permanentes (em casas específicas) e os eventuais (em locais públicos, como ginásios). A idéia é que a arrecadação movimente por ano R$ 4,7 bilhões, sendo resultado de 15% do cálculo entre a receita e o valor dos prêmios.

Os recursos seriam destinados completamente para a saúde. Pelas previsões do autor da proposta, deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), correligionário do ministro, desta maneira os bingos empregariam 120 mil brasileiros.

– É o começo de um debate – disse. – Não podemos mais fingir que os bingos não funcionam, não estão espalhados pelo País.

O deputado nega que o lançamento do projeto seja oportunista ou até mesmo um disfarce para tentar ganhar apoio da sociedade e dos parlamentares para a proposta.

– Não adianta proibir e continuar ocorrendo na ilegalidade e pior, como dizem, com envolvimento até com o crime organizado – justifica. – Vamos combater qualquer irregularidade, fiscalizar e legalizar. E com isso acredito que nada é mais justo do que o jogo financiar um setor (saúde) que está ameaçado de parar.

"Por que não legalizar? Tem a loteria funcionando a todo vapor. É só amarrar bem e fiscalizar"

Maurício Rands (PE) líder do PT na Câmara


Fiscalização

O ponto polêmico da proposta, no entanto, é a permissão para a jogatina, que seria por meio de autorização e não de concessões. No entendimento de deputados, a medida dificulta a fiscalização. Pelo texto, poderiam ser criadas empresas com capital social mínimo de R$ 500 mil, além da obrigatoriedade de empregar 50 pessoas e da exigência dos sócios não terem implicações na Justiça.

– Por que não legalizar? – diz o líder do PT na Câmara, Maurício Rands (PE), explicando que não há nenhum acordo em torno da proposta. – Tem a loteria funcionando a todo vapor. Qual a diferença? É só amarrar bem a proposta e assegurar fiscalização. A palavra é fiscalização. Mas defendo que o controle tem que ficar com o agente público.

No que depender do líder petista, se o texto ganhar fôlego, haverá mudanças. Rands, que foi designado pelo Planalto para sensibilizar os governistas pela regularização dos bingos, tem bastante simpatia pelo jogo do bicho e deve pedir a inclusão desta modalidade de azar na proposta.

– (O jogo do bicho) faz mais parte da cultura popular do brasileiro – defende Rands.


“Com fiscalização e um bom controle não vejo problema em legalizar”

Garibaldi Alves, presidente do Senado

Influência do crime organizado preocupa

A grande preocupação que os parlamentares demonstram ao tratar da liberação dos jogos de azar é a delicada relação com o crime organizado. Bingos, caça-níqueis e jogos do bicho sempre estiveram ligados a uma cultura de que são negociações clandestinas. Desde 2004, bingos e máquinas caça-níqueis estão proibidos no Brasil, por decreto presidencial. Afinal, motivos e exemplos de irregularidades não faltam.

Um caso recente envolve a ex-governadora do Rio de Janeiro Rosinha Matheus e o deputado estadual e ex-chefe de Polícia Civil Álvaro Lins (PMDB) que são acusados pela Procuradoria Regional da República do Rio de terem recebido doações ilegais de quadrilhas de máquinas caça-níqueis e do jogo do bicho. As doações teriam ocorrido entre 2001 e 2002, ano em que Rosinha se elegeu governadora. Ela aparece como uma das maiores beneficiárias das contribuições não declaradas à Justiça, tendo recebido R$ 1,6 milhão na casa do "principal contador da máfia dos caça-níqueis e do jogo do bicho", segundo o Ministério Público Federal.

Mas o episódio mais lembrado e de impacto ocorreu em 2005, quando o ex-assessor da Casa Civil, Waldomiro Diniz, foi acusado de cobrar propina de empresários do ramo de jogos para arrecadar dinheiro para o PT. O caso motivou a CPI dos Bingos que entrou para a lista das comissões de inquérito que acabaram em pizza. O presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), foi quem relatou a CPI na época. Seu relatório acabou sem a recomendação para a regularização dos jogos, mas Garibaldi acredita que é melhor regulamentar o azar.

– Com fiscalização e um bom controle não vejo problema em legalizar – diz.

Justiça

O debate sobre a legalização dos jogos não envolve apenas Executivo e Legislativo. Sem autorização para funcionar, muitos empresários recorrem a Justiça local e conseguem continuar de portas abertas. Não se sabe ao certo quantas casas de jogos ganharam liminares na Justiça de juízes e desembargadores permitindo a manutenção da atividade, mesmo sem regras claras para o setor.

O deputado Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP) quer colocar um freio neste recurso e esperar a aprovação de seu projeto de lei na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara que impede a concessão de liminares em mandados de segurança e em medidas cautelares, limitando a atuação dos órgãos judiciais na concessão de autorizações para o funcionamento de bingos, jogos eletrônicos e similares.

Para o tucano, a ausência de uma regulamentação cria uma indústria de liminares para sustar a suspensão de atos administrativos que impedem o funcionamento, a abertura ou a reabertura dos locais de jogo.

Até a equipe de Mantega chegou a pensar nessa alternativa de arrecadação

Há em tramitação nas duas casas 70 projetos sobre o tema

Apesar da movimentação pelos bingos envolvendo a saúde, uma outra proposta tem mais chances de se tornar real no Congresso. O texto é um substitutivo elaborado levando em consideração mais de 70 proposições sobre a regularização dos jogos de azar. O foco continua sendo os bingos, mas há brechas para colocar dentro da lei outras modalidades, mas sempre com a restrição aos caça-níqueis. As medidas de fiscalização, a cargo dos Estados, prometem ser mais rígidas.

A matéria começou a ser criada no final do ano passado e foi reforçada porque parte da equipe econômica do governo pensou em utilizá-la como uma fonte alternativa de arrecadação, para compensar parte do rombo deixado pela CPMF. Preparada pela Consultoria Legislativa da Câmara a pedido do relator da matéria na Comissão de Finanças e Tributação, deputado Vignatti (PT-SC).

O projeto tinha o aval do governo para começar a tramitar na comissão, mas os escândalos em torno do mau uso dos cartões corporativos atrapalharam os planos do governo. Tanto que Vignatti ainda é cauteloso ao falar de como fechou o projeto. Pelo que se sabe, a grande novidade seria a possibilidade do controle eletrônico dos bingos, que só terão autorização para funcionar se estiverem conectados com os órgãos fazendários federais, estaduais e municipais.

Auditoria externa

   CONTRA ­ Chinaglia reage à proposta: "Não sei de nada disso"

CONTRA ­ Chinaglia reage à proposta: "Não sei de nada disso"
As casas de jogos também estariam sujeitas a permanente auditoria externa. E, ao contrário do outro projeto, destina 13% da arrecadação sobre o valor das apostas e seria aplicado em segurança, educação, esporte e cultura.

– Acredito que seria uma distribuição mais justa – diz o petista.

Sobre incorporar a proposta do petebista ao seu relatório, Vignatti ainda não tem posição, uma vez que não teve acesso ao teor completo do que defende Arnaldo Faria de Sá. Mas já avisa que não pensa em recuar da idéia de repassar a exploração dos bingos diretamente para os Estados, mas sob uma legislação federal.

– No meu entender, o sucesso da fiscalização depende disso – diz.

O líder do PT segue o discurso, mas aposta ainda em mais liberdade para os Estados.

– Deve-se deixar que cada unidade da federação decida como vai regulamentar seu setor para tornar, inclusive, as medidas mais eficazes – explica Rands.

O ex-presidente da CPI dos Bingos, senador Efraim Moraes (DEM-PB), destaca que uma das sugestões da comissão seria legalizar os bingos, mas voltou atrás por temer a relação entre as empresas que exploram jogos de azar com o crime organizado.

– Defendo a legalização, mas é preciso estabelecer mecanismos seguros de fiscalização, envolvendo Estados e prefeituras para impedir qualquer ligação dos jogos com o crime organizado – pondera Moraes.

Entre as explicações governistas a favor da legalização dos bingos, surge ainda o fator de que Brasil e Cuba são os únicos dos 108 países membros da Organização Mundial do Turismo (OMT) que não têm os jogos de azar regulamentados. O dado faz parte de um estudo encomendado pelo Planalto sobre o tema. Para se ter uma idéia dos recursos dos bingos pelo mundo, eles financiam saúde e educação no México; na Finlândia auxilia nas pesquisas de ciências e nas artes; na Irlanda promove esporte e cultura.

– Isso mostra que não tem crime algum em tentar utilizar recursos dos jogos para desenvolver setores fundamentais do País – completa o líder petista.

A oposição, no entanto, avalia o debate como inapropriado. O presidente da Frente Parlamentar da Saúde, deputado Rafael Guerra (PSDB-MG), entende que estabelecer uma relação entre ações sociais e a exploração de um vício é perigoso.

– Não posso acreditar que uma medida como esta esteja sendo articulada. Daqui a pouco vou ter que torcer para que os donos das casas de jogos faturem muito em cima de um viciado para a Maria e o João terem um atendimento eficiente na rede pública de saúde. Isso é um absurdo – ataca o tucano.

Para conseguir dar vida as propostas, os governistas também vão ter que convencer o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), de que este é o momento apropriado para discutir o assunto. Chinaglia já discutiu as propostas informalmente com um grupo de parlamentares, mas não demonstrou nenhuma vontade de incluí-las na lista de prioridade da agenda da Casa. Questionado sobre a possível discussão das matérias, o presidente da Câmara desconversa.

– Não sei desse assunto – afirma o petista. (Jornal do Brasil - Márcio Falcão de Brasília)



 

 

Copyright 2002 - 2006 SALEX - Todos os direitos reservados. All rights reserved.